A Discórdia que Destrói a Comunhão
Estudo Bíblico em 2 Coríntios 12:20 – “Temo, pois, que, indo ter convosco, não vos encontre na forma em que vos quero, e que também vós me acheis diferente do que esperáveis, e que haja entre vós contendas, invejas, iras, porfias, detrações, intrigas, orgulho e tumultos.”
Texto Base: 2 Coríntios 12:20
Tema: A porfia (discórdia) como obra da carne e como evitá-la
Público-alvo: Líderes, professores de EBD, grupos de estudo, discipulado, cultos de quarta-feira
Tempo estimado: 40-50 minutos
Introdução
O apóstolo Paulo, escrevendo aos coríntios, expressa um temor genuíno. Ele teme que, ao visitá-los, encontre a igreja em estado de confusão espiritual. Entre os comportamentos que ele menciona está a “porfia” — uma das obras da carne que destrói a comunhão fraterna e impede o crescimento espiritual.
A palavra “porfia” aparece em diferentes traduções com termos variados: discórdia (NVI), brigas (NTLH), contendas (outras versões). O termo grego éris (ἔρις) significa literalmente contenda, disputa ou confusão. É o espírito que gera divisão, que alimenta conflitos e que transforma irmãos em adversários.
Este estudo é importante porque vivemos em tempos de muita confusão, tanto no mundo quanto, infelizmente, dentro de muitas comunidades cristãs. Contendas, brigas, disputas por posição — tudo isso tem destruído relacionamentos e enfraquecido o testemunho da igreja. Paulo nos adverte que estas atitudes são obras da carne, incompatíveis com a vida no Espírito.
Neste estudo, vamos examinar as motivações para as discórdias, as origens das contendas segundo o livro de Provérbios, e como podemos vencer este pecado e viver em paz.
1. A natureza da porfia
O que é porfia?
A porfia é mais do que uma simples discordância de opiniões. É uma disposição interior que busca conflito, que alimenta disputas e que se recusa a ceder. É a atitude de quem está sempre pronto para brigar, sempre disposto a contender, sempre resistindo à paz.
Em Gálatas 5:19-20, Paulo lista as obras da carne, e entre elas está a porfia: “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias…”
A porfia está em má companhia. Aparece ao lado de inimizades, iras, dissensões. Todas são manifestações de uma vida governada pela carne, não pelo Espírito.
O contexto de Corinto
A igreja de Corinto era conhecida por suas divisões. Em 1 Coríntios 1:11-12, Paulo já havia confrontado este problema: “Porque a respeito de vós, irmãos meus, fui informado pelos da família de Cloe, que há contendas entre vós. Quero dizer com isto que cada um de vós diz: Eu sou de Paulo, e eu de Apolo, e eu de Cefas, e eu de Cristo.”
Anos depois, escrevendo 2 Coríntios, Paulo ainda temia encontrar contendas entre eles. O problema persistia. As porfias não haviam sido vencidas. E Paulo sabia que sua reação diante disso seria rígida — algo que os coríntios talvez não esperassem.
Isso nos ensina que porfias não desaparecem sozinhas. Se não forem confrontadas espiritualmente, elas se enraízam e crescem. Uma igreja dividida hoje será ainda mais dividida amanhã, a menos que haja arrependimento genuíno.
2. Motivações para as discórdias
O orgulho como raiz
Provérbios 13:10 declara: “Da soberba só resulta a contenda, mas com os que se aconselham se acha a sabedoria.”
A primeira motivação para a porfia é o orgulho. Uma pessoa que se acha melhor que os outros não quer abrir mão de sua opinião ou vontade. Prefere brigar a ceder. Prefere vencer a fazer paz. O resultado inevitável é contenda.
A soberba é característica satânica. Apocalipse 13:5 fala da boca que profere grandes coisas e blasfêmias. Ezequiel 28:14-16 descreve a queda de Satanás, que era um querubim ungido, mas pecou por sua arrogância. Quando o orgulho governa o coração, a pessoa age como o inimigo, não como filho de Deus.
O antídoto é a humildade. Filipenses 2:2-5 nos exorta: “Completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa. Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.”
Tabela: Orgulho versus Humildade
| Característica | Orgulho (gera porfia) | Humildade (gera paz) |
|---|---|---|
| Atitude | “Eu estou certo” | “Posso estar errado” |
| Relacionamento | Competição | Cooperação |
| Conflito | Alimenta a disputa | Busca reconciliação |
| Opinião própria | Inegociável | Aberta a conselho |
| Resultado | Contenda e divisão | Sabedoria e unidade |
| Origem | Satânica (Ez 28:14-16) | Cristã (Fp 2:5-8) |
3. Origens das discórdias
O livro de Provérbios é rico em ensinos sobre as origens das contendas. Identificar a raiz do problema é o primeiro passo para vencê-lo.
a) Ódio
Provérbios 10:12: “O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões.”
O ódio é a falta de amor. Onde não existe amor, sempre há confusão. O amor cobre — não expõe, não amplifica, não alimenta o conflito. O ódio faz o oposto: excita, provoca, inflama.
b) Ira
Provérbios 15:18: “O homem iracundo suscita contendas, mas o longânimo apazigua a luta.”
Provérbios 29:22: “O iracundo levanta contendas, e o furioso multiplica as transgressões.”
Provérbios 30:33: “Porque o bater do leite produz manteiga, e o torcer do nariz produz sangue, e o açular a ira produz contendas.”
A raiva gera brigas e discussões muitas vezes desnecessárias. Existem pessoas que se tornam iracundas porque se deixam dominar pela raiva. Mas também há aqueles que provocam raiva nos outros para que aconteça a contenda. Ambos pecam.
c) Fofoca
Provérbios 16:28: “O homem perverso espalha contendas, e o difamador separa os maiores amigos.”
A calúnia e a fofoca são combustíveis poderosos para a contenda. Uma palavra maldosa passada de ouvido em ouvido pode destruir amizades de anos. O difamador não descansa até separar pessoas que antes estavam unidas.
d) Maledicência
Provérbios 26:20: “Sem lenha, o fogo se apaga; e, não havendo maldizente, cessa a contenda.”
O hábito de falar mal das pessoas é desvio de comportamento que sempre resulta em confusão. Mas observe a sabedoria de Provérbios: sem lenha, o fogo se apaga. Se não houver quem alimente o conflito com palavras maldosas, a contenda naturalmente cessa.
e) Insensatez
Provérbios 18:6: “Os lábios do insensato entram na contenda, e por açoites brada a sua boca.”
A falta de sabedoria faz as pessoas entrarem em discussões desnecessárias e falarem de coisas que não sabem. O insensato não mede consequências. Fala primeiro, pensa depois — se é que pensa.
f) Desrespeito
Provérbios 22:10: “Lança fora o escarnecedor, e com ele se irá a contenda; cessarão as demandas e a ignomínia.”
A pessoa escarnecedora é quem vive carnalmente e não respeita a ninguém. A solução drástica de Provérbios é afastá-la da comunidade. Com sua saída, a contenda também vai embora.
g) Cobiça
Provérbios 28:25: “O cobiçoso levanta contendas, mas o que confia no Senhor prosperará.”
Quem cobiça sempre quer estar à frente dos outros. Disputa posição, recursos, reconhecimento. E essa disputa gera contenda inevitavelmente.
Tabela: As sete origens das contendas
| Origem | Texto de Provérbios | Descrição |
|---|---|---|
| Ódio | 10:12 | Falta de amor que excita conflitos |
| Ira | 15:18; 29:22; 30:33 | Raiva que suscita brigas |
| Fofoca | 16:28 | Difamação que separa amigos |
| Maledicência | 26:20 | Falar mal que alimenta o fogo |
| Insensatez | 18:6 | Falta de sabedoria nas palavras |
| Desrespeito | 22:10 | Escárnio que gera ignomínia |
| Cobiça | 28:25 | Ganância que disputa posição |
4. Como resolver discordâncias
Provérbios 17:19 adverte: “O que ama a contenda ama o pecado; o que faz alta a sua porta facilita a própria queda.”
Se já sabemos que a contenda é pecado e obra carnal, como cristãos espirituais precisamos lutar contra ela. Provérbios nos oferece duas estratégias práticas.
a) Desistir
Provérbios 17:14: “Como o abrir-se da represa, assim é o começo da contenda; desiste, pois, antes que haja rixas.”
A imagem é poderosa. Uma pequena rachadura em uma represa, se não for contida, se transforma em rompimento total e devastação. Assim é a contenda: começa pequena, mas se não for interrompida, cresce até destruir tudo.
A sabedoria diz: desista antes que haja rixa. É melhor parar a discussão no início do que levar adiante e gerar consequências irreversíveis. Insistir em um problema muitas vezes é prolongá-lo, não resolvê-lo.
Isso não significa ser covarde ou omisso. Significa ter sabedoria para discernir quando uma discussão é produtiva e quando é apenas alimentação de contenda. A pessoa madura sabe a hora de parar.
b) Desviar-se
Provérbios 20:3: “Honroso é para o homem o desviar-se de contendas, mas todo insensato se mete em rixas.”
O servo de Deus se afasta de todo tipo de confusão porque sabe que não vale a pena. Às vezes é melhor sair fora do que continuar no meio de uma briga. O insensato se mete em rixas que não são suas. O sábio desvia-se delas.
Observe que Provérbios chama isso de “honroso”. Na cultura do mundo, fugir de briga é visto como fraqueza. Na sabedoria de Deus, é honra. O verdadeiro forte é aquele que tem poder para brigar, mas escolhe não brigar.
Atitudes práticas para evitar contendas
A vida cristã nos leva a ser pessoas responsáveis. Antes de qualquer atitude, precisamos refletir sobre suas consequências. Se o final não pode ser previsto, ou se torna arriscado, então não devemos prosseguir em algo de que podemos nos arrepender depois.
Algumas perguntas que ajudam:
- Esta discussão vai edificar ou destruir?
- Estou buscando a verdade ou querendo vencer?
- Posso ceder neste ponto sem comprometer princípios?
- O que glorifica mais a Deus: continuar ou parar?
Conclusão
Deus não é Deus de confusão, mas de paz (1 Coríntios 14:33). A discórdia é abominável aos Seus olhos (Provérbios 6:19). Viver em contendas é viver em desobediência, governado pela carne, não pelo Espírito.
É muito desagradável estar em um local onde há contendas. Provérbios 17:1 nos lembra: “Melhor é um bocado seco e tranquilidade do que a casa farta de carnes e contendas.” A paz vale mais do que qualquer vitória em discussão.
Por isso é importante buscar ser manso como Jesus (Mateus 11:29) e pacífico como Ele nos ensinou (Mateus 5:9). Os pacificadores serão chamados filhos de Deus. Os contenciosos, por outro lado, manifestam as obras da carne.
Você está vivendo em meio à confusão? Identifique a raiz — orgulho, ira, fofoca, maledicência? Confesse como pecado. Busque a transformação pelo Espírito. Pratique a humildade. Desista das discussões improdutivas. Desvie-se das rixas.
Não viva em contendas. Viva em paz. E seja instrumento de paz onde quer que esteja.
Quadro resumo: Porfia — Diagnóstico e Solução
| Aspecto | Problema | Solução Bíblica |
|---|---|---|
| Definição | Contenda, discórdia, briga | Paz, unidade, concordância |
| Natureza | Obra da carne (Gl 5:20) | Fruto do Espírito (Gl 5:22) |
| Raiz principal | Orgulho (Pv 13:10) | Humildade (Fp 2:3) |
| Combustível | Ira, fofoca, maledicência | Amor, silêncio, benção |
| Estratégia 1 | Insistir na discussão | Desistir antes da rixa (Pv 17:14) |
| Estratégia 2 | Meter-se em brigas | Desviar-se de contendas (Pv 20:3) |
| Resultado | Divisão e destruição | Paz e edificação |
Perguntas para Discussão
- Reflexão pessoal: Você consegue identificar situações em sua vida onde a porfia se manifestou? Qual foi a raiz do conflito — orgulho, ira, fofoca ou outra das origens mencionadas?
- Aplicação prática: Das sete origens das contendas listadas em Provérbios (ódio, ira, fofoca, maledicência, insensatez, desrespeito, cobiça), qual você considera mais presente na igreja hoje? Como podemos combatê-la?
- Estudo comparativo: Compare Gálatas 5:19-21 (obras da carne) com Gálatas 5:22-23 (fruto do Espírito). Como o fruto do Espírito serve como antídoto para cada uma das obras da carne relacionadas à porfia?
- Desafio comunitário: Provérbios 26:20 diz que “sem lenha, o fogo se apaga”. Que tipo de “lenha” costumamos colocar nos conflitos de nossa comunidade? Como podemos, coletivamente, parar de alimentar as chamas da contenda?
- Reflexão final: É possível defender a verdade sem entrar em porfia? Como Jesus lidava com oposição sem se tornar contencioso? O que podemos aprender com Seu exemplo?
Referências Bíblicas para aprofundamento
Sobre a porfia como obra da carne:
- Gálatas 5:19-21 — Lista completa das obras da carne
- Romanos 13:13 — Comportamentos incompatíveis com a vida cristã
- 1 Coríntios 3:3 — Contendas como sinal de carnalidade
Sobre o orgulho como raiz:
- Provérbios 13:10 — Soberba gera contenda
- Filipenses 2:1-8 — O exemplo de humildade de Cristo
- Tiago 4:6 — Deus resiste aos soberbos
Sobre as origens das contendas:
- Provérbios 6:16-19 — Sete coisas que Deus abomina
- Provérbios 10:12 — Ódio versus amor
- Provérbios 15:18; 29:22 — Ira e contenda
- Provérbios 16:28; 26:20 — Fofoca e maledicência
Sobre paz e reconciliação:
- Mateus 5:9 — Bem-aventurados os pacificadores
- Romanos 12:18 — Ter paz com todos os homens
- Hebreus 12:14 — Segui a paz com todos
- 1 Coríntios 14:33 — Deus não é de confusão
“Este esboço é ideal para o culto de de quarta-feira. Veja mais pregação para culto de quarta-feira.”




